terça-feira, 18 de outubro de 2011

Berlim @ Alemanha

Madrugada dentro, algures no limite asiático apanhámos um avião com destino a Berlim. Não sem antes apanhar uma grande seca, uma vez que o avião deveria partir por volta das 2h da madrugada e atrasou mais de 2 horas, obrigando mais uma vez a uma soneca no chão frio do aeroporto. Chegados a Berlim de manhã bem cedo, o primeiro acto foi pegar na escova de dentes e entrar na primeira casa de banho do aeroporto.
Estava ansiosa para ver a mudança radical que é sair de Istambul, com calor e onde reina o caos e cor, e chegar a Berlim, com frio, tempo nublado e cidade cinzenta. Realmente, como é possível ver dois extremos no espaço apenas de umas horas? Parecem locais opostos do planeta.
Berlim é Berlim. Ao soar este nome o que vem logo à cabeça é de uma cidade pesada... cinzenta. Na verdade, esta foi mesmo a primeira impressão, não estivesse quase a chover. Tomei o pequeno almoço perto do ícone da Berliner Fernsehturm, Torre da Rádio e depois comecei a passear sem saber muito bem por onde.
Rua após rua fomos encontrando os locais emblemáticos da cidade, pequenos fragmentos do Muro de Berlim, Reichstag (Parlamento Alemão), o símbolo por excelência da cidade, a porta de Brandenburgo, a zona vanguardista de Berlim, a Potsdamer Platz, a fantástica ilha dos Museus, Checkpoint Charlie, o Memorial do Holocausto com milhares de pedras simbolizando túmulos, o Schinkel, a fantástica Siegessaule ou Coluna da Deusa Vitória que vi apenas ao longe pois o cansaço já pesava.
A ideia que fiquei de Berlim é que é uma cidade funcional. Não é a mais bonita que vi até hoje, mas sem duvida uma das mais poderosas. Nota-se o peso da cidade, nas grandes avenidas e em todos os edifícios, para além das pessoas... frias.
Como manda a tradição, não podia sair da Alemanha sem comer a verdadeira da salsicha. Comprei então uma salsicha alemã num pão a um vendedor de rua, e fiz daquilo o meu almoço. Não sei se era da fome ou da salsicha, mas a verdade é que foi a melhor que comi até hoje.
Horas depois estava de regresso ao avião para mais um voo.
Saí de Berlim com a sensação que faltou tanta coisa para ver. Eu anda completamente esgotada ao fim de quase 3 semanas em viagem, para além de ter pernoitado no aeroporto. É uma cidade na qual só vi a fina capa da superfície. Muita coisa ficou por ver, muitos quilómetros por andar e muita gente por falar. Quero, sem duvida nenhuma, um dia regressar para conhecer mais a fundo esta histórica cidade.
Por volta das 20h aterra o avião em Madrid, no dia seguinte teria o último com destino ao Porto.








segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Istambul @ Turquia

Antes de iniciar esta viagem, a minha maior curiosidade residia em conhecer Istambul. Aquela cidade milenar, dividida entre Europa e Ásia, com uma mistura de culturas que só aquela cidade conhece. Dizer que adorei Istambul é dizer pouco, só o nome da cidade já arrepia, não fosse a antiga Constantinopla...
A primeira impressão é... completo caos! Muita, muita gente pela rua, carros desorganizados pelas estradas, transportes publicos apinhados de gente... é muita gente, realmente muita, não fossem eles 13 milhõs de habitantes.
A cidade é maior que gigantesca e moderna, muito moderna, uma cidade ocidental ao nível dos países nórdicos, não fosse a confusão em que Istambul vive...
Bom calçado nos pés que é como quem diz, umas havainas e toca a meter quilómetros nas pernas. A Mesquita Azul é um edifício imponente. Grande e grandioso, que não deixa ninguém indiferente quando se olha por fora, muito menos quando se está no interior. Foi a primeira vez que vi uma mesquita de grandes dimensões e são de uma beleza extrema. No interior, decorado com milhões de pequenos azulejos e com uma tapeçaria a cobrir todo o chão, a única coisa que se sente é paz. Uma grade divide o corredor para turistas e mulheres, enquanto que a maior parte está reservada aos homens que diariamente lá vão rezar. Ouve-se a oração num volume baixo enquanto se caminha por aquele magnífico vestido. A indumentária feminina inclui um lenço na cabeça, ombros e pernas tapadas e sapatinhos na mão. Não é permitido a ninguém entrar calçado. Sugiro que levem o vosso próprio lenço, caso contrário será emprestado um dos famosos lenços que eles possuem por lá, que pelo aspecto já passou por muitas cabeças sem ter vista água. Aproveitei para me sentar um pouco no chão naquele tapete lindíssimo e super confortável. Ali estava eu, na mesquita Azul em Istambul, em pleno Ramadão.




Mesmo em frente à Mesquita Azul, encontra-se a milenar Basílica de Santa Sofia, hoje em dia transformada em museu. Depois de igreja foi reconvertida em Mesquita, e hoje é um dos maiores simbolos da cidade e da sua história. Mais uma vez, a mesquita é enorme, e nota-se no seu interior a influência dos anos e das religiões. Desta vez, o seu interior não é repleto de silêncio nem orações, mas sim de barulhentos turistas. Uma coisa que achei imensa piada foi aos candeeiros, que apesar de pendurados naturalmente nos tectos, estão suspensos a poucos metros do chão. A sensação é de uma gigantesca área e com aqueles objectos como uma das poucas decorações interiores. As paredes são pintadas a pequenos azulejos que sobreviveram ao longo dos anos, que quando se repara bem, vê-se que contém uma elevadíssima quantidade de ouro.





Uma outra coisa obrigatória é apanhar um barquinho e subir o Canal do Bósforo que divide a cidade e os continentes. A viagem demora cerca de uma hora e meia na qual o barco navega junto às margens para se ver as maravilhosas construção do canal. Naturalmente, as únicas pessoas que embarcam nestes barcos são turistas. É uma viagem bastante agradável, passada entre o bar e a proa.




Chegados a terra já com o por do sol, a melhor coisa que se pode meter no estômago é a típica sande de peixe. Existem em pequenos barcos ao lado da ponte, que notam-se bem porque não é comum ver-se barcos a abanar tanto. Eu nunca vi tal coisa, o banco a abanar de tal forma que parecia que virava, e muito tranquilamente no seu interior estão várias grelhas onde se assa o peixe. Para comprar um, basta chegar perto de um desses barcos e pedir a sande que vem, para além do peixe, com alface e cebola. Depois é tentar arranjar uma mesa pequena e baixa e dois banquinhos para comer tranquilamente. Nos poucos minutos que demora a comer, muitos vendedores passam por todas as mesas, tentando vender bebidas ou toalhitas para limpar as mãos. Confesso que detesto cebola crua, mas aquela sandocha soube pela vida...





Muito próximo da Basílica de Santa Sofia encontram-se as cisternas. Um mundo subterrâneo povoado por peixes que vivem em águas de pouca profundidade. Vale a pena visitar por várias razões, a primeira é porque é fresco lá dentro... tou a brincar. Na verdade, é escuro... mas belo. Os pilares estão iluminados por fracas luzes, o que dá a sensação de andar no meio da escuridão num mundo à parte. Curiosas são as medusas, duas bases de pilares com caras, uma delas de lado e outra de pernas para o ar, que ninguém sabe muito bem qual o objectivo de tais figuras.




Um outro lugar obrigatório é o Grande Bazar, o maior bazar coberto do mundo. Esperava ver muita confusão lá pelo meio, mas enganei-me. Realmente o seu interior é enorme com as ruas devidamente nomeadas. Na rua principal vê-se imensas joalharias em devidas lojas, mas caminhando por ruelas paralelas o que se vê são pequenas entradas com todo o tipo de material exposto no exterior. Mas apesar do tamanha, é bastante limpo e organizado. É tão grande que se encontra no interior esquadra de polícia, farmácia e restaurantes. Quanto à quantidade de material, é muita, a diversidade é que nem tanto. Passado um tempo tinha a noção que estava a ver sempre os mesmos tipos de produtos, essencialmente roupa, jóias e tapetes.




Local obrigatório é o Palácio Real e o harém. Complexo formado por vários edifícios, onde o visitante vai saltando de uma para outro, vendo a beleza das construções, dos jardins e das jóias dos antigos sultões. As vistas do palácio são incríveis e os objectos inimagináveis. Vi pedras preciosas em número e tamanho como jamais sonhei.
O harém confesso que foi uma desilusão. Não porque fosse feio, mas honestamente estava à espera de algo mais, ou tamanha ou grandiosidade e riqueza. Vê-se apenas compartimentos e nada mais.






De resto, Istambul são ruas e ruelas apinhadas de gente das mais diferentes culturas. Vê-se mesquitas em todos os cantos, misturadas com lojas internacionais. Ruelas com bares alternativos, onde se ouve grande musica enquanto se desfruta de uma cerveja. O local de jantar que me ficou gravado na memória, foi um pequeno restaurante onde jantei no terraço rodeado por gatos nos muros, uma musica maravilhosa e uma grande surpresa ao sair. Nada mais nada menos, que uma das salas do restaurante com alguns jovens estrangeiros à volta de uma mesa, a tocar instrumentos, e uma bela voz portuguesa a cantar Maria Lisboa. A sensação de algo tão familiar, num local tão distante assombrou-me a alma.
No último dia, fiz questão de ir para o local principal, à volta da Mesquita Azul, onde as famílias se juntam para comer a refeição diária. Eram 19h estava eu sentada num banco de jardim, enquanto milhares de pessoas se aglomeravam nas mesas, nos bancos ou mesmo na relva com os seus pratos, comida, e às vezes fogões espalhados pela área. Anoiteceu, do minarete das mesquita ouve-se a tradicional oração, sinal de que se pode comer. Foi um festival de comida, risos e conversas que presenciei. Foi um momento inesquecível. Depois, com a barriga já a dar sinal, fomos comer e beber umas boas cervejas a um pub. Foi a despedida de Istambul, depois disso, tínhamos um avião para apanhar a meio da noite.




Sozopol @ Bulgária

Aterrado o avião, tivemos de esperar uma eternidade ao sol até aparecer um autocarro que fosse até à cidade de Burgas. Achei piada ao método de compra de bilhete. Uma pessoa vai-se habituando ao longo dos anos a comprar bilhetes numa máquina ou à entrada do autocarro no motorista. Bem, por aqui as coisas ainda se passam à moda antiga. Uma pessoa entra e depois de estar sentada é que passa o revisor a cobrar o bilhete. A viagem afinal ainda era longa e o autocarro era dos típicos urbanos. Passado não muito tempo adormeci, já não tinha mais forças. Acordei passados 40min na estação de autocarros de Burgas. Pronto, já só faltava uma viagem... até Sozopol. O autocarro apareceu passada meia hora, e mais uma vez adormeci, neste momento já dormia em qualquer lado, até em cima de um muro debaixo de um sol de 33ºC. Mais 40min de viagem e eis que finalmente ponho os pés na tão aguarda terriola de Sozopol. O que geralmente se faz sem dificuldade, que é encontrar o hotel, aqui não conseguimos escapar a uma boa caminhada de mochila às costas. Um bom tempo depois, finalmente entrámos no hotel. Nunca mais me esquecerei da expressão na cara da funcionária da recepção, a simpática Marya, quando vê a entrar naquele hotel de luxo duas pessoas com aspecto de quem vive na rua. A primeira pergunta foi "Are you ok?", ao que prontamente respondi "No".
Quando entrei no quarto, não quis dormir nem tão pouco tomar banho. Saí do quarto, demorando apenas o tempo necessário para vestir o bikini e pegar na toalha de praia. Apressámos-nos para a praia, deixámos cair as toalhas na areia, e corremos... sim, corremos para a água. Parecia uma criança que nunca tinha estado na praia. Eu mergulhava, ria muito, boiava na água, voltada a rir. Só dizia "Já cá estamos, nem acredito que chegámos!!!!", e mais uma vez ria com o mais puro dos sorrisos.
Mar negro inaugurado, um bom lanche num pub e passados uns minutos estava completamente aterrada a dormir. Desta vez não era num autocarro, não era no chão de um comboio, não tão pouco no assento, não era no chão frio da estação de autocarros, não era no avião, não era num muro ao sol... era numa bela e limpa cama.
Os dias por Sozopol passaram a voar, ficámos lá 5 dias nos quais conseguimos descansar. A rotina era maravilhosa, levantar ao final da manhã, tomar o pequeno almoço/almoço à beira mar, mergulhinho na praia, jantar e pouco mais. A cidade é completamente turística, parecia o Algarve. Apesar de ter tido a preocupação ao marcar férias na praia ter procurado um local pouco turístico, a realidade ao chegar foi um pouco diferente do que estava à espera. Toda a marginal são restaurante, lojas e bares. Tudo pequeno, tudo pré-fabricado onde se vendia desde gelados, a kebabs, passando por lojas de bikinis e óculos de sol, tudo a que uma praia tem direito. Ao jantar era a verdadeira festa, onde cada restaurante tinha o seu próprio cantor ao vivo, rivalizando com com o cantor do restaurante ao lado, separado apenas por uma pequena rede. O café matinal era sempre num bar muito catita na praia, mais conhecido por nós como o bar da barriguitas, o lanche geralmente era no pub, enquanto que o jantar era todos os dias num local diferente.
Hoje, em meados de Outubro quando escrevo isto, tenho saudades daquela areia e daquele maravilhoso mar com a água nos 30º.
Gostei, gostei imenso de lá ter passado uns dias em que a preguiça era a grande dominadora do dia.
Domingo, dia 21 de Agosto estávamos novamente em Burgas, desta vez à espera do autocarro para o local que mais ansiava conhecer... Istambul.




Sófia @ Bulgária


A passagem por Sófia foi rápida, e ainda bem, caso contrário seria mau sinal.
Mal o comboio parou, corremos para a saída arranjar um táxi. Após um dificil comunicação, lá fizemos o taxista entender que tínhamos voo passado 40min. Cinco minutos após entrar no carro, este foi abaixo e não pegava. Pensava para mim... como é possível isto acontecer???? O carro após várias tentativas lá pegou e fomos a fundo para o aeroporto. O senhor com um inglês macarrónico explicou que os bairros pelos quais passávamos eram os piores de Sófia, mas era o caminho mais rápido para o aeroporto. Que me importava naquele momento os bairros? Eu estava a vê-los, mas o meu único pensamento era chegar ao aeroporto. O relógio não parava e eu via cada vez mais longe a oportunidade de embarcar. Entrámos no aeroporto às 9h20m. Nunca entrei tão rápido num aeroporto, a correr com a mochila às costas à procura do balcão do check-in. Quando lá chegámos estava fechado, mas uma vez que não tínhamos bagagem de porão ainda nos deixaram fazer. Lembro-me que o que senti estrondoso... Alegria, muita alegria, alívio, eu saltava e sorria, tudo isto misturado com muito cansaço e uma sensação de que "Fogo... conseguimos". A viagem era pequena, o destino era Burgas na costa do Mar Negro. Nunca, nunca, nunca uma viagem me soube tão bem. Sabia que tinha sido uma dura viagem, mas que os próximos dias seriam de praia.
A esta hora ainda estava longe da tão esperada praia, e não fazia ideia que ainda tinha vários transportes para apanhar e o cansaço sempre a acumular. Parei para pensar um pouco, afinal, tinha saído de manhã bem cedo do dia anterior de Sarajevo, tinha atravessado os balcãs num velho autocarro, atravessei a Sérvia num comboio assustador, e apanhei o avião, tudo isto no meio de ainda outra aventuras. Sentia-me bem... cansada, mas viva... muito viva...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Nis @ Sérvia


Pois bem, um dos riscos que se corre quando se viaja e não se tem tudo marcado ao pormenor, é que podemos ter de fazer viagens menos boas. Estava ainda à noite em Sarajevo, quando dei conta que tinha 36h para apanhar um avião em Sófia. Isto não é grande problema quando estamos a falar da Europa Ocidental, mas a realidade é que estávamos na Bósnia, tínhamos de atravessar a Sérvia e chegar antes das 8h a Sófia na Bulgária. Havia apenas uma alternativa, que não era perfeita, mas era a única, e nesse caso cruza-se os dedos para que tudo dê certo. No dia seguinte de manhã, acordei por volta das 6h da manhã, e apesar de imaginar que iria ser um grande esforço, nunca pensei que estaria para embarcar na minha maior aventura de viagens. A primeira etapa era apanhar um autocarro que nos levasse da Bósnia até Nis na Sérvia, qualquer coisa como 250km. Como só havia 2 por dia, um às 8h e outro ao final da tarde, era essencial conseguirmos bilhete para o da manhã. A questão do bilhete foi fácil, um pouco mais chato foi arranjar dinheiro, pois não existia nenhuma caixa multibanco na estação de autocarros, e pagamentos por cartão também é coisa desconhecida por aqueles lados. Uma coisa tão simples como um pagamento obrigou-nos logo pela manhã a fazer uma pequena corrida com as mochilas às costas. Pontualmente o autocarro arranca... mas que autocarro!!!! Muito velho, cujo maior luxo era ter AC, apesar de funcionar apenas uns minutos por hora. O calor lá dentro era insuportável, o autocarro fazia barulhos muito estranhos, ao ponto de eu pensar seriamente que ía avariar pelo caminho e ficaríamos no meio daqueles bosques perdidos, o cheiro das pessoas, mais uma vez, insuportável. Parámos por volta do meio dia, no meio do nada, onde existia apenas um modesto restaurante. Olhava à volta e tudo o que via era montanhas, sem nenhuma casa ou alma visivel. Se alguém quer viajar com luxo, esqueça estas aventuras... a casa de banho era unissexo, sem sanita, com um buraco no chão completamente repugnante, a porta era de madeira com espaços entre as tábuas, sem papel higiénico, sem lavatório e virada para o exterior, onde se formava uma fila para as suas necessidades. Nunca na minha vida vou esquecer aquela experiência. Foi também lá que pela primeira vez dei de caras com café que era apenas café moído e água fervida. Nos dias seguintes, habituei-me a esse tipo de café, e esqueci completamente o típico expresso. Na verdade, o sabor era extremamente agradável. Uma vez mais no autocarro e seguimos viagem por aquelas estradas estreitas, com piso esburacado e repletas de curvas fechadas. Do lado direito via o rio, do lado esquerdo as escarpas das montanhas. Confesso que as paisagens que vi durante aquela viagem foram as mais belas que os meus olhos jamais observaram. Afinal, estava nada mais nada menos a atravessar os balcãs. Se eu pensava que ía um pouco à aventura, uma coisa que jamais esquecerei foi o grupo de viajantes na fronteira com a Sérvia. Não consegui entender muito bem a situação, mas eles estavam literalmente no meio das montanhas, entraram no autocarro, não tinham dinheiro para os bilhetes e tinham problemas com o passaporte. Passado um pouco, lá entrámos na Sérvia, e uns quilómetros à frente o autocarro pára no meio das montanhas e saem aquelas estranhas pessoas. Eu volto a repetir... não existia nada, nada num raio de vários quilómetros. Aquilo sim, é uma aventura, eu comparada com aqueles sou uma menina... Ao final da tarde, já farta daquele autocarro cheio de estranhos barulhos, cheguei a Nis, Sérvia. Bem... a sensação é que de país para país as condições de vida vão diminuindo drasticamente. A estação de autocarro era um antro de sujidade. Não tem qualquer tipo de informação e se uma pessoa pensa que tem lá táxis à porta, tem de dar duas voltas até realmente perceber onde eles estão, apesar de já lá ter passado duas vezes. Quando cheguei lá tinha fome e dei uma voltinha pela rua, mas depressa dei volta e regressei. Acho que foi o pior local que vi até hoje. Penso que naquela rua funcionada um mercado com várias lojas. Bem, o aspecto daquilo era, para além de sujo e asqueroso, assustador. Naquele momento eu só queria um táxi. Passei várias vezes por um local onde indicava táxis, até que para meu espanto reparei que os 2 carros lá estacionados eram realmente para transporte. Vou tentar explicar o carro: Um carro tipo Trabant com os seus 30 anos para ser simpática, amarelo (esta era pelo menos a cor visível por baixo de toda aquela ferrugem), os estofos rasgados com toda a esponja à mostra, nódoas por todo o lado, e obviamente todo sujo. O taxista, simplesmente arranca o carro e a primeira coisa que faz é acender um cigarro. A janela de trás nem sequer abria. Ao andar naquele estranho carro, comecei a olhar à volta e apercebi-me que todos os carros eram assim, questões de limpeza e segurança estão longe de ser vistos. A primeira paragem tinha de ser na estação de comboio a ver se arranjávamos bilhete para o comboio das 2h30m até Sófia. Depois de bilhete na mão, há que fazer tempo até de madrugada por ruas nunca antes vistas. Com o anoitecer percorremos às escuras as ruas até encontrar o centro. O centro de Nis é uma longa rua pedonal rodeada por lojas internacionais, bares e restaurantes. Parámos numa esplanada a fazer horas até ao jantar. Apesar de gostar de experimentar sempre novas comidas, quando avistei um MacDonalds deu-me uma enorme vontade de comer lá. A vontade veio mesmo devido ao sentimento de ter visto algo tão normal por cá, e lá quase nem se avistam, digamos que era algo familiar, apesar de ser o Mac. Depois fui tomar um café a pensar já na longa noite que tinha pela frente e demos um pequeno passeio pelas muralhas da cidade. As muralhas abrigam uma data de restaurantes e bares, que foi o local escolhido até ser hora de regressar ao comboio. A espera na estação foi longa, com sem abrigos pelo meio que aproveitavam os bancos para pernoitar. Neste momento já eu não me preocupava com nada. Tinha o bilhete de comboio na mão, a chegada estava prevista para as 7h30m, o comboio era internacional e vinha já de Bucareste, logo deveria ser bom e não como o que apanhei em Mostar, e já me imaginava a dormir uma bela soneca até Sófia. Estava longe, muito longe da realidade que me esperava. Na realidade, o comboio chegou às 3h da manhã. Mesmo assim, não me preocupei com o facto. Tinha um avião para apanhar em Sófia às 9h40m, e meia hora de atraso ainda não era preocupante. Fiquei sim preocupada foi quando vi o comboio. Se imaginava algo razoável, o que apareceu foi um comboio fantasma. Fui a primeira pessoa a entrar no comboio e daí até ao fim da viagem tomei consciência que nunca mais me esqueceria das horas passadas lá dentro. Logo que subi as escadas o que me invadiu foi um cheiro repugnante, uma mistura de casas de banho que não têm autoclismo com o cheiro das pessoas que desconhecem água. A seguir, espreitei para dentro de todos os camarotes à procura de um lugar para sentar e a única coisa que vi foi o comboio apinhado de gente a dormir, a fumar, a beber, num silêncio total no meio daquela total escuridão em que se encontravam os camarotes. Das pessoas que encontrei nem vou falar, nunca vi tal na vida. Após correr todo o comboio verifiquei que não existia lugar para nenhuma pessoa que entrou em Nis. Resultado, dezenas de pessoas apinhadas num corredor com menos de 1m de largura. A viagem fez-se às escuras, olhando para fora a única coisa que se via eram os faróis do comboio e ouvia-se os ramos das árvores a passar pelas janelas. O corredor era repugnante, com uma enorme nuvem de fumo de tabaco e um cheiro que quase dava vontade de vomitar, que apesar de tudo o nariz lá se habituou. Quando o cansaço foi extremo não tive outra alternativa do que deitar-me no chão do corredor fazendo da minha mochila a minha almofada. Volta e meia dava conta de alguém passar por cima de mim. O corredor era tão estreito que se alguém o quisesse atravessar tinha de passar obrigatoriamente por cima de mim. Antes de entrar na Bulgária lá consegui arranjar um lugar sentada. A minha alegria... nem queria acreditar. Não quis saber das pessoas daquela carruagem, nem tão pouco de cheiro que de lá emanava... eu tinha um assento... Com os primeiros raios de sol entra a primeira polícia fronteiriça, neste caso à saída da Sérvia. Passaportes na mão uma vez, duas vezes... e por aí adiante. Fronteira da Bulgária seguidamente. Naquele momento pensava que se não tive problemas em nenhuma fronteira, não seria à entrada da União Europeia que os ía ter... pois sim! Lá veio o polícia mais antipático que vi até hoje perguntar pelos passaportes, logo a seguir pelas bagagens. Fez o favor de gritar algo em bulgaro na carruagem, e de levar o homem que ía ao meu lado para ficar retido da fronteira porque levava uma roldana... sim... uma roldana. O pobre do homem ficou numa fronteira no meio do mato porque tinha uma roldana no saco. Após ver e rever toda a gente e tudo do comboio, este lá seguiu. Esta brincadeira levou uma hora. Neste momento via as horas passar e começava a duvidar que iria chegar ao avião. Estava feliz apenas por uma coisa... já não tinha mais fronteiras pela frente pelos próximos dias. Naquele momento tomei conhecimento do quão é dificil entrar na União Europeia, mas vistas bem as coisas também só apanhei o comboio que por excelência é do contrabando. Quando o comboio começou a travar para parar em Sófia já o relógio marcava 9h. Antes disso, ainda percebi que tipo de comtrabando e quem o fazia naquele comboio. Nada mais nada menos que o revisor do comboio, um senhor com os seus 100kg e de barba comprida e escura, com a ajudar de alguns companheiros. Vi onde esconderam o tabaco, que sem a menor das preocupações o tiravam dos candeeiros dos tectos de todas as carruagens, e também vi o mesmo senhor com a mão cheia de euros a distribuir pelos companheiros. Honestamente, queria lá saber daquilo... eu só queria entrar num avião.



Sarajevo @ Bósnia

Fim de tarde em Mostar numa estação de comboios cujo aspecto era de abandono. Ervas a crescer pelos carris, apenas uma antiga carruagem estacionada e carros pela gare. Dessa estação lembro-me perfeitamente da senhora que nos vendeu os bilhetes em que a comunicação se fez essencialmente por gestos e papéis. Lembro-me dela sozinha numa cabine, a fumar um cigarro de boquilha, óculos na ponta do nariz, uma roupa floreada, uma permanente dos anos oitenta... mas com uma simpatia e paciência descomunal.
Se esperava uma viagem de comboio tranquila, estava muito longe de adivinhar as condições em que iria viajar. Um comboio muito podre, completamente cheio, onde as pessoas com sorte arranjaram lugar naquelas poltronas (sim, poltronas) com um aspecto miserável, todos partidos e cheios de nódoas, mas com um aspecto confortável, onde tudo fumava lá dentro, onde as garrafas de cervejas vazias se espalhavam pelo corredor, e onde metade dos passageiros fez toda a viagem de 3h de pé ou sentada no chão, onde eu me incluía. No entanto aquela vista é completamente avassaladora, e foi nessa altura que comecei a perceber o quão bela é a Bósnia.
Chegados à noite a Sarajevo a prioridade era chegar ao hotel no centro, pousar as coisas, tomar um banho e jantar. Um simpático taxista lá nos levou, apesar de algumas travagens bruscas e manobras perigosas, além de, a meio do percurso, simplesmente meter a mão de fora e retirar a tabuleta que dizia "Ofical Taxi Sarajevo". Enfim, nada a que uma pessoa não se habitue em taxis no estrangeiro.
Não imaginaria que viesse tão cedo a Sarajevo. Geralmente não é daqueles locais onde uma pessoa sonhe ir. Bem, isto pode ser para a maioria das pessoas, mas quanto a mim, gosto de ver locais com história, seja ela boa ou má. Passei parte da minha adolescência a ver notícias da guerra na Bósnia, principalmente o cerco a Sarajevo, e sinceramente, não sei muito bem o que esperar daquela cidade. A primeira impressão é que a cidade está recuperada. Uma rápida volta pela parte da cidade pós guerra dá para denotar que está repleta de edifícios modernos como uma qualquer outra capital europeia. O que realmente me surpreendeu foi o centro histórico. Estava à espera de ver algumas casas com as marcas de balas, mas o que vi foram algumas ruelas giríssimas, com pequenas lojinhas em madeira, quase a lembrar um ar medieval. Faz-se compras e come-se muito bem por lá. Esta parte da cidade, apesar de não ser grande é bastante acolhedora. Recordo-me de uma altura em que já era tarde, e passei numa dessas ruas onde estava um bar a dar boa música, e toda a rua estava apinhada de gente jovem a beber, ouvir musica, tal e qual bairro alto em Lisboa ou as galerias no Porto. Fiquei com a noção que afinal Sarajevo esteve em guerra sim, mas hoje é uma cidade normalíssima apinhada de turistas. Aproveitei também para conhecer a ponte onde foi assassinado o Arquiduque Franz Ferdinand, cujo acto desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Tive ainda tempo para ir até ao Estádio Olímpico, apesar de ser bastante longe e da desilusão ao chegar lá e ver que estava fechado. Por essa longa caminhada, deu para conhecer um pouco melhor a verdadeira cidade, e não apenas a face que se mostra aos turistas. Agora já se vê em todas as casas as marcas da guerra, mas é apenas isso, nada mais. Agora, a verdadeira imagem que fica de Sarajevo é apenas uma: os cemitérios. Jamais imaginei a quantidade de tumulos que vi naqueles dias, é algo de assombroso. Todos os pequenos espaços da cidade estão repletos de campas, tanto muçulmanas como cristãs. Uma rotunda é aproveitada para cemitério, um parque também, os pequenos jardins espalhados pelas mesquitas ou pelas cidades também o são, e falta ainda a maior visão, que é olhar para as encostas que rodeiam a cidade, e a única paisagem que se vê é as encostas pintadas de verde e salteadas de branco. É uma visão a que ninguém consegue ficar indiferente, não se consegue mesmo. Mas ao mesmo tempo, é uma coisa tão presente nos olhos, que quase começa a perder a magnitude na mente...